quinta-feira, 13 de outubro de 2011

A história resumida sobre: POLÍTICA EXTERNA NO 2º REINADO E A GUERRA DO PARAGUAI

Muito bem... Começamos então com nossas aulas resumidas. Eis pontos fundamentais que devemos saber ao fazer um vestibular sobre a Política Externa no Segundo Reinado.

1 - Relações Brasil x Inglaterra;
1.1 - Dependência Econômica;
1.2 - Questão da Escravidão;
1.2.1 - 1845: Lei Bill Alberdeen (Proibia o tráfego de navios negreiros);
1.2.2 - 1850: Lei Eusébio de Queiroz (Proibido o tráfico de escravos);
1.3 - Questão Christie (1862-65);
1.3.1 - Rompimento das relações diplomáticas;
1.3.2 - Sentimento anti-britânico, também por causa das leis;
1.3.3 - Roubo da carga da embarcação "Prince of Wales" no litoral gaúcho por piratas;
1.3.4 - Marinheiros Ingleses x Marinheiros Brasileiros: Fato ocorrido na night carioca quando 3 marinheiros ingleses saíram bêbados de uma festa e mexeram com mulheres de marinheiros brasileiros. Resumo? Pauleira! E os ingleses foram parar na delegacia.
1.3.5 - A questão foi resolvida quando os ingleses resolveram pedir desculpas formais ao Brasil em 1865.
2 - Livre Navegação;
3 - Interesse do Brasil em evitar a reunificação do Vice-Reino de Buenos Aires;
4 - Questões Platinas -> Brasil x Unificação Platina (Argentina, Uruguai e Paraguai).
4.1 - Inglaterra - Posicionava-se contra a unificação pelo seu interesse na livre navegação nos rios platinos;
4.2 - Causas das Intervenções brasileiras:
4.2.1 - Ambição Argentina em formar o antigo Vice-Reinado de Buenos Aires;
4.2.2 - Vacilações uruguaias em face de reinvidicações argentinas;
4.2.3 - Política armamentista e expansionista paraguaia;
4.3 - Intervenção no Uruguai x Oribe (partido dos blancos, anti-brasileiros) - 1851;
4.3.1- Oribe (chefe partido blancos) + Rosas (ditador argentino) = Queriam a unificação platina;
4.3.1.1 - Oribe ocupou uma porção do território uruguaio com os seus "confederados". Contra isso se opunham Brasil e o partido dos colorados uruguaios;
4.3.1.2 - Blancos x Colorados = Invasões constantes no Rio Grande do Sul causando danos aos gaúchos;
4.3.1.3 - Brasil + Joaquim Soares (líder colorado) = aliança militar;
4.3.1.4 - Conde de Caxias (Brasil) + Colorados + Provincias de Corrientes e Entre Rios (argentinos) derrotaram as tropas de Oribe em 11 de outubro de 1851.
4.4 - Intervenção na Argentina x Rosas (ameaça política - continuação do combate a Oribe) - 1852;
4.4.1 - Companha contra oribe se extendeu contra o Ditador Rosas;
4.4.2 - Brasil + Uruguai + Corrientes e Entre Rios ao comando do argentino Urquiza invadem a Argentina;
4.4.3 - Rosas foi derrubado em 3 de fevereiro de 1852, após não resistir a Batalha de Monte Caseros, por Urquiza e Manuel Marques de Souza (futuro Conde de Porto Alegre);
4.4.4 - Fim da ditadura e reestabelecimento das relações entre Brasil e Argentina;
4.5 - Intervenção no Uruguai x Aguirre - 1864
4.5.1 - Aguirre (blancos) + Solano Lopez (Ditador Paraguaio) x Flores (colorados) + Brasil
4.5.2 - Novos problemas no Rio Grande do Sul que ameaçaram o Governo Imperial devido a uma pressão dos gaúchos. Eles queriam uma ação imediata do Governo Imperial, caso contrário, armariam a guerra com suas próprias mãos;
4.5.3 - Sob o comando do Almirante Tamandaré, foram tomados os postos de Salto e Paisandu, no Uruguai, e feito um bloqueio a Montevideo;
4.5.4 - Em dezembro de 1964 o Marechal Menna Barreto invade o Uruguai;
4.5.5 - Em 20 de fevereiro de 1865 o governo uruguaio foi aceito pelos brasileiros e passificado, dando origem a Guerra do Paraguai, por terem provocado a "Ira de Solano";
4.6 - Intervenção Brasileira no Paraguai - A Guerra do Paraguai (1865-70)
4.6.1 - Formam-se duas Alianças:
4.6.1.1 - Tríplice Aliança (Brasil, Uruguai e Argentina) x Solano Lopez (Paraguai - Solano possuía um exército enorme formado por 80 mil homens bem equipados e bem treinados por estrangeiros + uma poderosa esquadra fluvial, enquanto o Brasil possuía apenas 1600 soldados de elite, dentre apenas 16 mil soldados em todo o território nacional);
4.6.2 - Solano tinha interesses de expandir o Paraguai anexando Argentina, Uruguai e o território do Rio Grande do Sul. Dentre outros, um dos principais motivos era a expansão marítima;
4.6.3 - Os motivos do estopim da guerra são variados, de acordo com alguns historiadores, porém, o mais aceito foi o aprisionamento da embarcação brasileira "Marquês de Olinda", por parte dos paraguaios, que ia em direção ao Mato Grosso carregando o governador da província e oficiais do exército;
4.6.4 - O Brasil, como possuía apenas 16 mil soldados em todo o território, lançou a campanha "Voluntários da Pátria" onde intensificou o treinamento de civis e escravos além da construção de barcos e navios de guerra;
4.6.5 - Batalhas:
4.6.5.1 - Naval de Riachuelo, ao comando de Barroso, demonstrou a enfim soberania brasileira na bacia platina;
4.6.5.2 - Expulsão definitiva dos invasores paraguaios no Rio Grande do Sul (Batalha de Uruguaiana);
4.6.5.3 - Vitória, ao comando do General Osório, na Batalha de Tuiuti;
4.6.5.4 - Vitória na Batalha de dezembro, sob o comando do Duque de Caxias;
4.6.5.5 - A campanha das cordilheiras, ao comando do Conde D'Eu, onde Lopez havia se refugiado com o que restou do seu exército;
4.6.5.6 - Vitória definitiva em 1870 na Batalha do Cerro Corá, quando Solano Lopez fora morto pelo exército brasileiro;
4.6.6 - Consequências:
4.6.6.1 - Dívida paraguaia, impagável se considerada a situação econômica do país no pós-guerra, acabou sendo perdoada;
4.6.6.2 - Nenhuma vantagem, principalmente territorial, para o Brasil, com exceção de que o território do RS estava finalmente livre de futuras invasões;
4.6.6.3 - Exército exige maior participação política no Império, o que acaba resultando numa oposição militar ao regime político porque suas exigências não foram aceitas por D. Pedro II;
4.6.6.4 - Abolição da escravidão;
4.6.6.5 - Enfraquecimento do império que deu base para o golpe militar que depôs o império brasileiro, formando a república.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Novas postagens...

Bom, pra não ficar muito tempo sem postar nada, porque tenho andado ocupado e não tenho conseguido escrever artigos com muita frequência, de vez em quando vou postar algumas coisas interessantes como textos, aulas de história (que chamarei de "A história resumida sobre..."), artigos e poesias de outrem.

Nada melhor que começar com Charles Chaplin, não acham?


"A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso.


Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade.


Você vai para colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando. E termina tudo com um ótimo orgasmo! Não seria perfeito?" (Charles S. Chaplin, 1962).



Isto me lembra um filme... hehehe!

sábado, 18 de junho de 2011

Descaso com o Patrimônio, principalmente, por parte da população e/ou proprietários?



A DESVALORIZAÇÃO DA MEMÓRIA E DO PATRIMÔNIO NA RAINHA DA FRONTEIRA.

Ivan Cesar dos Santos Pinheiro[1]

“Novo documento [...] deve ser tratado como documento/monumento [...] onde a urgência é elaborar uma nova erudição capaz de transferir este do campo da memória para o da ciência histórica” (LE GOFF, 2003).

O descaso evidente que se presencia nos tempos de hoje ao que diz respeito a memória e patrimônio da cidade histórica de Bagé, na fronteira com Uruguai, palco de batalhas históricas entre nativos, espanhóis e portugueses com o intuito de delimitar seus territórios, ainda em tempos do colonialismo nos séculos XVIII e XIX, é lastimável. Logo que retornei a cidade onde nasci e me criei, há pouco mais de um ano, depois de cerca de cinco anos fora, tive um impacto, principalmente visual, muito grande. Uma cidade caracterizada por sua aparência arquitetônica luso-espanhola muito marcante, aos poucos, vai perdendo seus ares coloniais. Muitas das casas que costumava passar em frente e admirar a beleza dos detalhes arquitetônicos e artísticos que marcaram minha infância e com certeza a de muita gente, estão mal conservadas, fechadas, demolidas, levadas ao chão noite a noite por maquinários impiedosos e sedentos de uma destruição massiva da história a mando de seus donos, desculpe o termo grosseiro típico de quem nasceu na fronteira, ignorantes. Uma verdadeira falta de respeito para com a história e memória do lugar. Prédios históricos são valorizados, não só no Brasil, mas no mundo todo, a exemplos próximos temos Pelotas, Rio Grande e outras tantas, como São Paulo onde na Avenida Paulista, por exemplo, encontramos vários casarões de quando a cidade ainda era um vilarejo contrastados com prédios moderníssimos de arquitetura futurista, envidraçados, de várias cores e formas diferentes.

Estes prédios estão para Bagé como materiais da memória coletiva, que segundo LEGOFF, em sua forma científica se dão através de dois tipos de materiais: documentos (escolha do historiador) e monumentos (herança do passado), diretamente ligados ao patrimônio de uma sociedade. Perceba que não estamos falando apenas de documentos como papéis, mas sim como uma testemunha de um fato ocorrido, documentos podem ter diversas formas além da que nos vem direto em mente. Os dois agentes de ambos que no caso dos documentos seriam, em primeiro plano, os cientistas do passado, os historiadores, que se dedicam a pesquisar e documentar seus projetos. No caso dos Monumentos, seriam as “forças” que operam ou governam no desenvolvimento temporal do mundo e da humanidade. A proposta e o desenvolvimento que o autor dá a esses dois objetos são extremamente fiéis ao que acredito. LEGOFF é um autor renomado mundialmente e muito criticado (seja positiva ou negativamente) por historiadores do mundo todo. Quanto a documentos, muitas vezes não são só escolhas do historiador, mas também escolhas da sociedade, do governo ou de uma civilização que influi, direta ou indiretamente, na visão do autor de tal objeto da história. Vale lembrar, como exemplo, que, fora a variação das visões de cada autor, a bíblia é um livro que fora modificado e enfeitado durante vários séculos para se adaptar ao contexto social de cada época, para que nunca perdesse sua valia dentre os religiosos. A questão dos prédios históricos se aplica perfeitamente neste quadro.

Temos por patrimônio um conjunto de bens produzidos por outras gerações, resultantes da experiência coletiva que um grupo humano deseja manter como perene. Supera a definição estreita de um conjunto estático de objetos, construções, documentos, obras, etc., sendo uma marca, um vestígio que individualiza os homens em momentos temporal e culturalmente distintos. Um produto da sociedade que o fabricou segundo as relações que aí detinham o poder. Se o que vivemos hoje é diferente do que se vivia quando essas construções foram feitas, devemos respeitar o que existe e construir o novo, para mostrar que soubemos evoluir sem quebrar os elos com o passado e nossas raízes. Se não temos interesse em fazer isso por nós mesmos, façamos por nossos pais, avós, bisavós, que com o suor de seu trabalho, constituíram o que temos em vista hoje.

A sede pela modernização está acabando com o que ainda traz muita gente de fora para conhecer e ver um pouco do que aconteceu no Rio Grande do Sul, o turismo histórico. Bagé é um monumento a céu aberto com casarões, igrejas e ruas repletas de artefatos trazidos da Europa para suas construções. O centro histórico da cidade é riquíssimo e pouca gente consegue ter a percepção do quanto isso valoriza o lugar. Não é necessário ser um erudito pra saber que o moderno, futurista, contrastado com o antigo, clássico, faz com que o antigo e o novo se fundam deixando uma cidade muito mais bela do que possamos imaginar, até porque o moderno, um dia, será clássico. Essa conscientização da população se faz necessária e seria fundamental para o crescimento econômico e social, a movimentação da economia e o enriquecimento cultural e físico do local. MENESES explica que existem três palavras chaves para memória e patrimônio: resgate, recuperação e preservação. A identidade de cada região é fundamental para sua valorização e só manteremos a identidade da rainha da fronteira com uma política concisa de valorização do patrimônio histórico riquíssimo que este município possui. Porém, não basta somente isto, mas também um engajamento por parte do povo bajeense para o sucesso desta empreitada.

Bibliografia:

LEGOFF, Jacques. História e Memória. SP – Ed. Unicamp, 2003. Cap.: Documento/monumento. Pg. 541.

SILVA, Zélia L. (organizadora). Arquivos Patrimônio e Memória: Trajetórias e Perspectivas. SP – Ed. UNESP. Cap. A crise da memória, história e documento: reflexões para um tempo de transformações. Por Meneses, Ulpiano.



[1] Historiador, acadêmico do curso de História Bacharelado, com ênfase em Patrimônio, da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) e acadêmico do curso de História Licenciatura da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUI).

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Breve História do Forte de Santa Tecla

O Forte de Santa Tecla teve sua fundação em 1774, no contexto da invasão espanhola de 1763 a 1776. Seu fundador foi o Governador de Buenos Aires, Dom Juan José Vertiz y Salcedo. Dom Juan saiu do Prata com uma guarnição de 5.000 homens, em 1773, com o objetivo de expulsar os portugueses do território gaúcho. Atingiram Santa Tecla, posto avançado de São Miguel das Missões, no início de 1774. Esta fortificação foi construída pelo engenheiro Bernardo Lecocq, que acompanhava Dom Juan, com ajuda dos índios Charruas que viviam na região. Os índios, cansados de batalhar e serem massacrados pelos portugueses, aceitaram ajudar os espanhóis a construir o forte porque em troca receberiam armas de fogo para lutar contra os lusitanos. O Forte era cercado por um fosso de 9 metros de comprimento por 2,5 metros de profundidade, em formato de estrela. Suas muralhas possuíam 3 metros de altura, tendo seus baluartes 5,5 metros de altura. Sua dimensão, tendo como base uma foto de satélite do local, era aproximadamente de 88 metros do lado oeste, 95 metros seu lado leste, 105 metros ao norte e 110 metros ao sul, tendo em seu total 14.175 m² de área. Em forma de um pentágono, suas fundações de pedra e cimento seguravam suas paredes levantadas com leivas de barro socado e construções de pau-a-pique, distribuídas em torno da praça de armas na sua área central. O barranco do rio Negro, que antecede o rio e não a taipa, como alguns autores descrevem, servia-lhe de proteção natural pelo lado norte. Sua importância se dava pela sua estratégica localização, onde de lá, se pode ver o Uruguai a “olho nu”, em seu ponto mais alto, o baluarte San Agustín. Nos outros baluartes, denominados San Miguel, San Juan Bautista, San Jorge e o que fechava a 5ª ponta do pentágono, à beira da ribanceira, San Francisco, era possível, em cada um deles, ver um ponto diferente das fronteiras, tendo assim, uma visão geral de toda a região. Possuíam também, cada um dos baluartes, canhões para defesa do forte.Anterior a fundação, em 13 de janeiro de 1750, foi assinado o Tratado de Madri, entre Dom Fernando VI da Espanha e Dom João V de Portugal. Este tratado estabelecia que Portugal cedesse a Colônia do Sacramento e as suas pretensões ao estuário da Prata, e em contrapartida receberia os atuais estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul (território das missões jesuíticas espanholas), o atual Mato Grosso do Sul, a imensa zona compreendida entre o Alto-Paraguai, o Guaporé e o Madeira de um lado e o Tapajós e Tocantins do outro, regiões estas desabitadas e que não pertenceriam aos portugueses se não fossem as negociações do tratado. Foi nessa época que, para garantir a validade do tratado, partiram de Santos 60 casais para se estabelecer na região da atual Porto Alegre. Esses casais fundaram o então Porto dos Casais. Foi uma primeira tentativa de paz entre os países ibéricos. Este tratado revogou o velho Tratado de Tordesilhas, estabelecido em 1494.
Foram nomeados o Coronel Francisco Antônio Menezes e o Capitão Juan Echvarria, respectivamente Portugal e Espanha, para demarcar os territórios previstos no tratado a mando dos Reis. Em 23 de fevereiro de 1753, chegaram os demarcadores responsáveis pela região do atual município de Bagé, onde, na proximidade de pouco mais de 1km do local que mais tarde foi construído o forte, existia uma pequena igreja, a capela de Santa Tecla. Ali eles foram recebidos por uma guarnição guaranítica comandada por José Sepé Tiarajú que os impediu de avançar pelo território. Assim, o trabalho de demarcação desta região foi suspenso temporariamente, obrigando portugueses a voltar para a colônia e os espanhóis para Montevideo. Era provável, pois em minhas pesquisas os números foram variando de fonte para fonte, que Sepé tivesse ao seu lado em torno de 600 homens, enquanto que os demarcadores, apesar de melhor armados, com armas de fogo, possuíam um contingente de 100 homens. Após a batalha, a guarnição guaranítica combateu novamente os europeus, desta vez na famosa batalha de Caboaté, em 1756, resultando na morte de seu líder, José Sepé Tiaraju.
Em 23 de março de 1776, após 26 dias cercando o Forte, o sargento Rafael Pinto Bandeira, junto de seu contingente de 1500 homens, derrotou os 200 espanhóis que se instalaram no forte. Antes de sair rumo a Rio Grande de San Pedro, onde também conseguiria a vitória sobre os espanhóis, Pinto Bandeira mandou incendiar e destruir o Forte de Santa Tecla.
O Forte foi novamente palco de desentendimentos nas discussões a respeito de demarcações de um novo tratado, o de Santo Ildefonso, assinado em 1777. Com isso, por seu grande valor estratégico, o primeiro vice-rei do Rio da Prata, Pedro de Cevallos, mandou reconstruir o forte, em 1978.
O vice-rei do Brasil D. Luiz de Vasconcellos e Souza, acerca do progresso das demarcações devidas pelo Tratado de Santo Ildefonso (1777), informa:
"Com a contradição manifesta aos sobreditos artigos [4, 5 e 6º do Tratado de Santo Ildefonso, 1777] pretendeu o comissário espanhol no progresso das demarcações das principais vertentes do rio Negro e Piraí, que o Forte de S. Tecla, situado dentro do espaço intermédio, ficasse pertencendo à Espanha, torcendo-se e estreitando-se a linha divisória para a parte de Portugal, a fim de ficar salva a pequena distância de três quartos de légua, em que se acha o dito forte, depois de assinalados os limites de ambas as nações. Conserva-se presentemente este forte em tão mau estado, que nada perde [a] Espanha em se arrasar e demolir: os seus parapeitos estão por terra em quase todo o recinto, o seu fosso no nível da campanha, e os seus quartéis mal servem de abrigo a uma guarnição de quarenta homens. A sua construção sempre foi [a] de um forte de campanha ou de registro, com figura irregular pentagônica, composto de três baluartes e de dois meio baluartes construídos de torrão, sem maior resguardo. A única utilidade que alucina aos espanhóis para se conservar o dito forte, se reduz a impedir os contrabandos das inumeráveis cabeças de gado vacum de que abundam aquelas grandes campanhas: mas é certo que existindo semelhante fortificação no meio de uma região deserta, e cruzada além disso de tantas estradas e veredas, para Maldonado, Montevidéu, Missões, Rio Grande e Rio Pardo, nem se podem conseguir aquelas aparentes vantagens, nem também deixarão de ocorrer motivos de discórdia entre os vassalos dos dois domínios, por ficar aquela vigia tão próxima da linha divisória por parte de Portugal, e tão remota e separada das outras povoações pertencentes à Espanha, infringindo-se conseqüentemente as regras mais certas da recíproca segurança, que o mesmo Tratado prescreve. (...) de comum acordo se entrou a demarcar o terreno compreendido entre as vertentes do Ibucuí-guassu até às imediações da falda meridional do Monte-Grande. Então é que conheceu o nosso comissário que, aceitando a nova proposição que lhe fez o seu concorrente, de admitir o curto espaço de légua e meia entre os limites do terreno neutral, se podiam melhor adiantar e estender os domínios de S. M., sem se embaraçar entretanto, com a única objeção de ficar inteiramente salvo e fora dos limites daquelas reservas o sobredito insignificante Forte de S. Tecla, que em qualquer caso de dever ou não existir, não embaraçava o recurso do expediente proposto, e só podia servir de obstáculo para não se verificarem as conhecidas utilidades, que se representavam para Portugal naquela demarcação." (Ofício de 20 de Agosto de 1789. RIHGB. Rio de Janeiro: Tomo IV, 1842. p. 7-9)
E conclui, sobre o assunto:
"Não deixa contudo de fazer algum obstáculo [à demarcação] o dito Forte de S. Tecla, por não exceder ali o terreno neutral a curta distância de légua e meia, ficando posto e aquela vigia em um lugar tão arriscado, e tão próximo à linha divisória, contra a forma estipulada no art. 6º. Mas nem por isso deixou o primeiro marco do lado da Espanha de ficar muito contíguo ao dito forte, que não deixara por esse motivo de vir a ser demolido, como se deve esperar da prevenção com que D. José Varella tem premeditado mudá-lo para um dos três cerros de Bahé, que existem pouco mais de três léguas ao sudeste da linha divisória." (Ofício de 20 de Agosto de 1789. RIHGB. Rio de Janeiro: Tomo IV, 1842. p. 7-9).
Porém, novamente tropas portuguesas, dessa vez do chamado Regimento de Cavalaria de Dragões do Rio Grande do Sul, em 1801, ao comando do coronel Patrício Correia da Câmara, Primeiro Visconde de Pelotas, destruíram definitivamente o Forte de Santa Tecla.
Em 1811, dez anos mais tarde, no sítio histórico do Forte, Dom Diogo de Souza concentrou suas tropas para invasão da Banda Oriental do Uruguai, o que deu origem ao primeiro povoamento da atual cidade de Bagé.

Pesquisas arqueológicas foram realizadas no sítio do Forte nos anos 1970. Para executá-las foram contratados dois profissionais na tentativa desvendar os vestígios do Forte. Um deles era o Arqueólogo da Universidade de Caxias do Sul, Fernando La Salvia, e o outro era o Historiador, Engenheiro e Arquiteto Francisco Riopardense de Macedo, ambos falecidos. A única coisa que nos resta desta intervenção é um pequeno relatório, sem muitas informações que La Salvia enviou ao Sr. Dr. Julio Nicolau De Curtis, na época representante do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Neste relatório, La Salvia discorre que, durante as escavações, foram encontradas as fundações do Forte, comprovando sua existência, também que, na limpeza feita nos dois poços existentes no local, foram encontrados ossos de animais, troncos, rodas de carretas maciças, uma culatra de canhão, pedaços de móveis e outros materiais menores, que eu presumo que fossem objetos pertencentes aos habitantes do forte. Nas escavações foram encontrados, além dos alicerces do forte, material de construção como pregos, restos de ferro, cerâmica, louça e, raramente, descreve ele, porcelana. Todo esse material encontrado por La Salvia não se sabe onde foi parar. O que o governo de Bagé sabe é que, o que estava na residência de La Salvia, sejam documentos ou achados, foi tudo para o lixo. A Família de La Salvia alega, segundo a Secretária de Cultura do Município, Roséli Safons, que, após sua morte, por desconhecimento do que ele tinha em seu escritório, encaixotaram tudo e colocaram para o caminhão do lixo levar. Todos torcemos para que isso não seja verdade e que, em algum lugar, estas peças estejam escondidas ou guardadas. Por esses e outros motivos, a intervenção feita por La Salvia foi considerada "desastrosa" por intelectuais, acadêmicos e moradores da região.
Este ano, fui convidado a também participar do Projeto "Parque do Forte Santa Tecla", que visa a preservação e revitalização do sítio arqueológico do Forte. Minha primeira missão, foi visitar o forte e fazer uma análise de como seria possível uma segunda intervenção no local. Perguntei como estavam as ruínas e o sítio e sempre me diziam: "Não tem nada lá!", ou "Não se vê nada". Duvidei, evidentemente destes depoimentos, pois, num sítio arqueológico rico como é o caso do Forte era muito improvável que nada estivesse lá ou nada pudesse ser visto. Nos meus primeiros passos já pude ver, de cara, as fundações do forte e seu contorno. São muito claras as evidências das fundações. Acredito que, fazendo uma nova intervenção arqueológica no local, será possível "emergir" as fundações para que fiquem bem claras para os visitantes do novo parque. Convidei o Prof. Dr. Fábio Vergara, da Universidade Federal de Pelotas, para vir dar seu aval sobre o forte e, ao acharmos uma trilha que levava até o final da ribanceira ao norte do forte, podemos enxergar algo que pode ser uma das maiores descobertas no sítio do forte desde as intervenções anteriores ou até algo que pode ser maior ainda: pedras que provalvemente são as que constituíam as paredes do forte e o local de onde provavelmente eram extraidas! Ficou muito claro para nós que alguns daqueles amontoados de pedras lá embaixo existentes eram pedras que de fato constituíam o forte, empurradas morro abaixo pelos portugueses que tomaram o forte duas vezes ou, talvez, tenham caído com o tempo, naturalmente. Pedras claramente cortadas a mão pelos construtores. Minha esperança, ao longo da nova intervenção é, também, achar objetos dos habitantes do forte ou das guarnições guaraníticas que por ali passavam. Esperamos que no futuro, mais objetos, pedras e fundações sejam encontradas, identificadas e retiradas de baixo da terra ou da ribanceira. O sítio é, sem dúvidas, rico e, praticamente, inexplorado. Sua interação com a comunidade pode e deve ser feita, ao longo deste projeto, podendo até ter muitos dos interessados ajudando voluntariamente os profissionais que ali estarão trabalhando.


Bibliografia:

ALMEIDA, A. B.; AZAMBUJA, O. A.; BARCELLOS, R. T.; BENCHIMOL, A. M. T.; FERREIRA, R. M. G.; LUCAS, Cesar; ZARUVNY, A. C. B.; ZARUVNY, E. B. A saga dos povoadores... e outros contos de Bagé. Porto Alegre: Metrópole, 2005.

BARRETO, Aníbal (Cel.). Fortificações no Brasil (Resumo Histórico). Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1958. 368 p.

BOUCINHA, Cláudio. Sepé Tiaraju na História de Bagé: os impedimentos do posto de Santa Tecla. Bagé: Arquivo Público Municipal, 2006.

CANDEIAS, Nelly M. F. República Guarani: As ruínas de São Miguel. Disponível em: http://www.jbcultura.com.br/nelly/rguarani.htm. Acesso em: 22/10/2010, às 16:25.

GARRIDO, Carlos Miguez. Fortificações do Brasil. Separata do Vol. III dos Subsídios para a História Marítima do Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Naval, 1940.

GIORGIS, L. E. C. O Tratado de Madri: 1750. Disponível em: http://www.terragaucha.com.br/tratado_de_madri.htm. Acesso em: 21 de outubro de 2010, às 17h03min.

IRIA, Alberto. IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros - Inventário geral da Cartografia Brasileira existente no Arquivo Histórico Ultramarino (Elementos para a publicação da Brasilae Monumenta Cartographica). Separata da Studia. Lisboa: nº 17, abr/1966. 116 p.

LA SALVIA, Fernando, e MACEDO, Francisco R. Relatório Sintético das Atividades Arqueológicas Realizadas no Forte de Santa Tecla. Caxias do Sul: UCS, 1970.

SOUSA, Augusto Fausto de. Fortificações no Brasil. RIHGB. Rio de Janeiro: Tomo XLVIII, Parte II, 1885. p. 5-140.

TORRES, L. H. O Poente e o Nascente do Projeto Luso-Brasileiro (1763-1777). Rio Grande: Biblos, 2008.

Banco de Dados:

Exército Brasileiro. Operação Santa Tecla. Disponível em: http://www.exercito.gov.br/03ativid/operacoes/tecla/histor.htm. Acesso em: 21 de outubro de 2010, às 17h20min.


quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O que querer?

_______Ao ser perguntado, inúmeras vezes, por amigos e conhecidos sobre o que eu quero pro mundo, já que sempre tento passar mensagens que façam as pessoas pensarem um pouco na realidade que as rodeia e nas coisas injustas que acontecem ao redor do mundo todo. Frases como “O mundo só saberá o que é igualdade social e paz quando o último Imperialista morrer enforcado nas tripas do último Padre”, adaptada da famosa frase de Diderot, ou “As injustiças cometidas a inocentes me fazem tremer de raiva e indignação” ou, ainda, “Pessoas sem cultura e com pouco estudo são facilmente enganadas e passadas para trás”, frases de Ernesto Guevara (SADER. Org. 1999: pg. 42). Mas então, de fato, o que eu quero com tudo isso?
_______Bem, eu gostaria de ver as pessoas vivendo numa sociedade igualitária, não que todo mundo fosse igual, tivesse um salário igual, vivesse numa casa igual, tivessem celulares iguais, computadores iguais, televisões iguais, enfim, mas numa sociedade onde todos pudessem ter um trabalho assalariado, uma casa, um carro, um celular, uma tv, e o que desejasse. Viver com dignidade. Nesta eles nunca passariam fome pois o básico lhes seria garantido para que jamais tivessem desculpas para desviar a atenção do que realmente importa. Uma sociedade onde todos fossem obrigados a estudar e tivessem essa oportunidade, sem pagar por isso. Fazer toda a escola e ainda a faculdade que desejasse, tendo transporte e material, tudo sem precisar desembolsar um tostão, saindo do mundo acadêmico já com empregos garantidos onde pudessem ser devidamente alocados. Seriam estimulados desde pequenos a vencer na vida, que o estudo e um simples livro pode mudar sua vida e fazer com que o mundo onde vivem seja melhor. Uma sociedade capaz de viver em harmonia, sem drogas, prostitutas, assaltantes, corruptos ou assassinos, os que aparecessem, a justiça cuidaria com maestria e rapidez, sem que ficassem anos julgando e estes continuassem por aí a cometer seus delitos. As cadeias fariam com que eles estudassem, trabalhassem, se tratassem com os profissionais necessários para que pudessem ser recolocados na sociedade, ou, pelo menos, vivessem dignamente dentro da instituição e fossem úteis para seu país e para a sociedade que eles prejudicaram. Uma sociedade que tivesse a sua saúde garantida por profissionais especializados. Não lhes faltaria atendimento a momento algum e nem remédios, tudo seria distribuído de maneira que ninguém falecesse sem que realmente fosse sua hora. Uma sociedade onde a imprensa se preocupa exclusivamente em informar os cidadãos e lhes servir e não tentar manipulá-los e fazê-los seguir suas crenças, suas opiniões e suas vontades. Uma imprensa que estimulasse e resgatasse a cultura e a história do país, e não fizesse e se interessasse com que a população fosse analfabeta e sem cultura, sem intelectualidade. Uma sociedade onde todos se preocupariam em ajudar quem precisasse, sem querer passar uns por cima dos outros.
_______Existem milhões de outros fatores que eu poderia citar aqui, mas não vou me estender mais. Vou para outro ponto...
_______Eu sei que é muito bonito tudo isso que eu falei, parece utópico, diga-se de passagem. Mas não é! Se todos se mobilizassem para tornar isso uma realidade, com certeza seria possível. O mundo onde vivemos nos ensina a sermos egoístas e pensarmos que nada diferente do que conhecemos é possível. Vi uma sociedade com muitas das características que eu citei neste texto. Cuba foi assim dos anos 1960 aos 1980. Uma sociedade que era sofrida, imposicionada e súdita ao desejo dos EUA antes da revolução, pôde se tornar uma sociedade que recuperou seu orgulho e sua dignidade e, auxiliada por outros países comunistas, pode se reconstruir e tornar seus desejos reais. Lá não haviam prostitutas, drogas, ladrões, corruptos, todos tinham as mesmas oportunidades, 1% da população era analfabeta e todos trabalhavam em prol da sociedade. Infelizmente com a queda da União Soviética, que era sua maior apoiadora, Cuba ficou novamente só no mundo porque, depois da revolução, ao perder seu "parquinho de diversões", os EUA fizeram com que todos os países fechassem as portas para os cubanos e estes não tem como se virar sozinhos, nenhum país é 100% auto-suficiente, então esta sociedade vem caindo ao longo dos anos e sua resistência se tornará em vão, mais cedo ou mais tarde. Ao entrevistar alguns cubanos, pude perceber que as novas gerações estão pensando que o mundo Capitalista é muito melhor que o em que vivem. Entende-se, pois o embargo imposto torna Cuba um país sem importações, isso implica em falta de atualização tecnológica e etc. O Capitalismo vai entrar lá e fazer com que Cuba volte a ser o bordel, o parque de diversões do imperialismo estadunidense. Alguém se encoraja a tentar impedir? Claro que não, ninguém quer ser invadido, não é mesmo? Então, seguiremos nessa sociedade diletante, que uns passam os outros pra trás e acham o máximo, que pessoas roubam, matam e se corrompem para sustentar suas famílias. Esse não é o mundo que eu quero para os meus filhos, mas infelizmente, sozinho e sendo motivo de piada quando tento convencer de que é possível mudar a realidade de todos, vou continuar vivendo nesse mundo medíocre. Minha avó já dizia: Quem quer faz, quem não quer inventa desculpas. Então, seguirei meu caminho, mas sem desistir de tentar lutar contra tudo isso e ser livre, é o que me move, o que me alimenta, o que me faz ser feliz!


Bibliografia:

CASTAÑEDA, Jorge. Che Guevara: A vida em vermelho. Ed. Companhia de Bolso. 2005.
DIDEROT, Dênis. Encyclopédie. 1772.
MORAIS, Fernando. A Ilha (Um repórter brasileiro no país de Fidel Castro). Ed. Alfa-Romeo. 1975.
SADER, Emir (Organizador). Sem Perder a Ternura: Pequeno livro de pensamentos de Che Guevara. Ed. Record. 1999.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

O que é ser Gaúcho?

Ser gaúcho, principalmente nos dias de hoje, não é só vestir-se feito um vaqueiro dos pampas, segurar uma cuia com erva-mate na mão e falar “Che” (ou tchê, aportuguesando a expressão). Ser gaúcho é fazer parte de um povo marcado por guerras e resistências a humilhações e tentativas de domínio, tanto contra brasileiros quanto contra castelhanos. É saber, no mais fundo de nossas almas, que nós somos fortes, resistimos ao frio, vento, geada, neve, calor, sol, eventos da natureza; agüentamos todas as tramóias vindas lá do Distrito Federal e mesmo assim, sendo um dos estados mais prejudicados pelos governos, de onde se tira muito dinheiro, temos mais educação e trabalhamos o dobro do que os estados que se direcionam para as demais localidades deste “continente” chamado Brasil. Essa alma batalhadora vem dos nossos povos que viviam na região dos pampas. Os índios que, depois dos domínios portugueses e espanhóis, foram obrigados a viver nas cidades e trabalhar dobrado para sustentar suas coroas, formando os países Argentina, Uruguai e o nosso Rio Grande do Sul. Estes índios, de alma guerreira, que não se deixam derrubar, que quando acham que alguma coisa está errada, vão para a rua bater panela ou protestar contra as injustiças deste mundo, sem se preocupar com o seu umbigo apenas, batalhando, ao velho estilo famoso e simbolizado na imagem dos três mosqueteiros britânicos – um por todos e todos por um – mesmo que isso os leve a morte.
As coisas por aqui nunca foram muito pacíficas. Ao mesmo tempo que a terra tinha donos, era uma terra de ninguém. Segundo o tratado de Tordesilhas, seríamos espanhóis, só que, nas reviravoltas que a história está acostumada a narrar mundo a fora, tomamos um rumo diferente. O que definiu no primeiro momento da exploração do território americano que o Rio Grande do Sul seria português, e portanto brasileiro, foi um rio, famoso por batalhas épicas e muito sangue derramado, o Rio da Prata. Martim Afonso de Souza, depois de naufragar e ser socorrido por seu irmão, Pero Lopes de Souza, chega na barra de Rio Grande (Batizada assim por acharem que a lagoa dos patos se tratava de um grande Rio). Por ainda ser território Espanhol e a capitania de Pero Lopes era a chamada Santana (Atual Santa Catarina) ficou intacto. Portugal sabia da região e a explorava clandestinamente, a Espanha ainda não tinha total conhecimento do território, avistava com olhos financeiros a região dos Andes, onde haviam as grandes civilizações americanas. Ao fazer o mapa da América, Bartolomeu Velho coloca o território gaúcho como Capitania Del Rei, ou seja, era território pertencente ao Rei. Como sabemos, neste período, 1580, Portugal e Espanha eram reinadas pelo Rei Filipe, e portanto, tudo que era português, espanhol também era.
Em 1626 foi fundado o primeiro povoado do Rio Grande do Sul. O padre Roque Gonzáles de Santa Cruz criou o “pueblo de San Nicolas” no vale do Piratini. 2 anos depois ele foi trucidado pelos próprios índios que tentara catequizar. Visto que sem reforços seria quase impossível dominar a alma dos indígenas dos pampas, fundaram 18 núcleos de catequese indígena no Rio Grande do Sul (Conhecido na época como província do Tape) que ao chegarem, trouxeram o gado para o território gaúcho, porém também não deu certo e novamente foram destruídos os núcleos. Somente quase 40 anos depois conseguiram fixar um núcleo no Rio Grande. Em 1680 se estabelece os Sete Povos das Missões, bem organizados e controlados. Quando chegaram os jesuítas aqui, depois destes 40 anos, encontraram um território absurdamente povoado por bovinos, herança deixada pelos 18 núcleos que foram destroçados anteriormente pelos indígenas, os animais se reproduziram de maneira inexplicável e lotaram o território do Rio Grande do Sul e Uruguai, fazendo com que até hoje sejam uma das maiores riquezas da região. Atualmente no Rio grande do Sul calcula-se que aproximadamente existem 13,6 milhões de cabeças de gado no estado. ( "www.fee.tche.br/sitefee/download/documentos_fee_53.pdf". Acessado em: Ago/2009 )
E o Gaúcho, onde ele aparece? No cenário marcado por gado e guerra, emerge o gaúcho. Nos primeiros tempos ele era o guasca, o gaudério, um marginal “sem lei nem rei”, aquele que “morava na sua camisa, debaixo de seu chapéu, montado em seu cavalo” e percorria aquela “terra de ninguém” que futuramente se torna o Rio Grande do Sul. Estes gaudérios eram, na maioria das vezes, resquícios daqueles índios que se negavam a catequese dos jesuítas e fugiam para o campo. Com o tempo o termo gaudério foi substituído pelo gaúcho, onde seu primeiro registro foi num documento de Dom Pablo Carbonell, no ano de 1771, onde ele refere-se a alguns “gahuchos” que fugiam de soldados espanhóis. Aos poucos, principalmente nos séculos XVIII e XIX, estes gaúchos foram se incorporando na sociedade, prestavam serviços aos estanceiros, nas charqueadas e trabalhos do campo, e faziam parte dos exércitos em troca de terras e produtos para auto-sustentação como alimentos, animais e etc. O Gaúcho começa a ser respeitado, admirado e exaltado como um grande herói depois da Revolução farroupilha e em seguida da guerra do Paraguai, onde fileiras destes homens venceram as batalhas e deram a glória (muito debatida hoje em dia se fora realmente um ato heróico, como o exército brasileiro se orgulha e exalta, ou se fora um grande massacre sem dó nem piedade, como os historiadores argumentam através de documentos e histórias) para o Brasil e para o estado do Rio Grande do Sul.
Enfim, o gaúcho surgiu nos índios, que povoavam as terras da América em paz, de certa forma, até que chegou o europeu e tomou posse deste território como se fossem donos do mundo, impondo leis, limites e tarefas a estes povos que terminaram por se extinguir depois de muito sangue derramado e tentativas de resistência mal sucedidas.
O que nos resta hoje é a tradição de cultivar a cultura gaúcha e a nossa alma, que essa sim, nunca irá se extinguir, pois somos o que somos e não o que os outros querem que sejamos, essa alma guerreira que nos mostra fortes a cada pedra que encontramos no caminho e nos leva a conduzir os problemas do mundo e do dia-a-dia com maestria, sem deixar-nos prejudicar ou perder nossas virtudes, como mostra no nosso hino: “não basta para ser livre, ser um povo forte aguerrido e bravo” pois “povos que não tem virtude, acabam por ser escravos”.


Bibliografia:

MACIEL, Maria Eunice. Memória, Tradição e Tradicionalismo no Rio Grande do Sul. UFRGS. 2004.

MAGALHÃES, Mario Osório. História do Rio Grande do Sul (1626 – 1930). Pelotas: Editora Armazém Literário, 2002.

MEYER, Augusto. Gaúcho, história de uma palavra. Porto Alegre: Cadernos do Rio Grande, IEL, Divisão de Cultura. SEC. 1957.