terça-feira, 19 de maio de 2009

Museus, Memória e Patrimônio

__O objetivo deste artigo é discutir e analisar textos sobre patrimônio, documento, monumento e memória de três autores: Jacques LeGoff (Documento/Monumento), Zita R. Possamai (O Patrimônio em construção e o conhecimento histórico) e Ulpiano Meneses (A crise da memória, história e documento: reflexões para um tempo de transformações).


__O primeiro texto (de Jacques LeGoff), fala dos materiais da memória coletiva em sua forma científica através de dois tipos de materiais: documentos (escolha do historiador) e monumentos (herança do passado). Ele cita os dois agentes de ambos que no caso dos documentos seriam, em primeiro plano, os cientistas do passado, os historiadores, que se dedicam a pesquisar e documentar seus projetos. Os Monumentos seriam as “forças” que operam ou governam no desenvolvimento temporal do mundo e da humanidade. A proposta e o desenvolvimento que o autor dá a esses dois objetos são extremamente interessantes. Quanto a documentos, muitas vezes não são só escolhas do historiador, mas também escolhas da sociedade, do governo ou de uma civilização que influencia, direta ou indiretamente, tal objeto da história. Vale lembrar, como exemplo, que, fora a variação das visões de cada autor, a bíblia é um livro que fora modificado e enfeitado durante vários séculos para se adaptar ao contexto social de cada época, para que nunca perdesse sua valia dentre os religiosos.
__LeGoff busca, através do texto, traçar uma linha do tempo onde mostra o surgimento do termo “documento” e seu trajeto até possuir a conotação que é utilizada hoje em dia e fazendo o mesmo, posteriormente, com o termo “monumento”.
__Citando Samaran, ele coloca que “não há história sem documentos” e com isto incluindo o “documento no sentido de documento escrito, ilustrado, transmitido pelo som, a imagem, ou de qualquer outra maneira” ainda citando que, com este “alargamento” do termo documento, explodiu nos anos 1960 uma verdadeira “revolução documental” e mais tarde com a intervenção da era digital.
__Posteriormente ele afirma que na concepção do documento/monumento, independente da revolução documental, tem como um de seus objetivos “o de evitar que esta revolução necessária se transforme num derivativo e desvie o historiador do seu principal dever: a crítica do documento enquanto monumento” sendo o documento “um produto da sociedade que o fabricou segundo as relações de forças que aí detinham o poder”. Neste caso é realmente preocupante, com o avanço da tecnologia e a facilidade da informação, a perda do instinto investigativo do historiador para com o documento/monumento, ou seja, a perda do discernimento do que é real ou fabricado.
__Por fim, ele adianta que o “novo documento [...] deve ser tratado como documento/monumento [...] onde a urgência é elaborar uma nova erudição capaz de transferir este do campo da memória para o da ciência histórica”.


__No segundo texto (de Zita Possamai) a autora não expõe de maneira significativa a sua opinião, mas vai baseando a definição de patrimônio e seu conhecimento histórico através de vários autores e suas diferentes visões. Fala inicialmente de dois grandes aspectos de patrimônio que seriam as políticas de preservação e a problematização do patrimônio, a busca do seu sentido e sua história.
__Ressalta a opinião de Françoise Choay que fala da diferença fundamental entre monumento (criado para relacionar a memória e o presente) e monumento histórico (construção de determinada estrutura para representar a história) relacionando a história da noção e conservação de patrimônio que fora iniciada, tal como é hoje, no século XIX, antes sendo realizadas somente pela Igreja. Tendo em vista que somente a Igreja era o órgão preocupado com a conservação antes do século XIX, podemos imaginar quanto do patrimônio levantado pelo homem se perdeu ao longo do tempo.
__Num segundo momento, ela abrange o assunto do campo do patrimônio e sua problemática axiológica, levando neste sentido a visão do mesmo como representação social, citando a visão de Chartier e também de Pomian. Coloca que o campo do patrimônio se define como “um sistema de relações objetivas entre os agentes sociais encarregados das tarefas práticas e simbólicas ligadas ao tombamento e preservação de bens culturais” (Lewgoy). Essa questão do tombamento e preservação do patrimônio, hoje em dia, e principalmente no Brasil, é extremamente complicada e dificultada devido à grande burocracia que envolve este aspecto. Muitas vezes este processo demora tanto que o bem material acaba por deteriorar-se. Ainda que hajam projetos como o “Monumenta” do governo federal, ainda assim é um processo dificultoso.
__Finalizando este parágrafo, a autora cita que se o conceito campo for considerado, o patrimônio deixa de ser algo dado e definindo apenas por um corpo técnico determinado e passa a ser pensado, identificando o conjunto de códigos mais ou menos estabelecidos entre diferentes autores que fazem uma seleção das estruturas materiais do passado a serem preservadas. Um patrimônio, uma vez instituído, passa a ser comparado a objetos sagrados no campo da preservação e inviolabilidade.
__Comentando o texto do LeGoff, anteriormente citado, e seu conceito de documento e monumento, verifica-se que não raras vezes se tenta apagar episódios históricos destruindo os seus vestígios e símbolos materiais (voltando ao assunto da Igreja que durante toda sua história lutou para modificar acontecimentos).
__É importante destacar que Possamai considera a história marcada por duas características essenciais: a mudança e a diferença, deixando de lado essa discussão sob pena do patrimônio ser reduzido “a patética preservação de restos do passado, que expressam apenas a vontade, o desejo e a memória de poucos”.


__O terceiro e último texto (de Ulpiano Meneses) introduz a problemática da memória que vem sendo foco da atenção das ciências biológicas e humanas, propondo algumas rápidas reflexões. Na primeira, coloca que a efervescência da memória possui três palavras chave: “resgate”, “recuperação” e “preservação”, sendo todas de essência frágil que necessitam de cuidados para não deteriorar ou perder uma substância já existente. Na segunda reflexão, aborda que a memória, tanto como prática, como representação, está viva e atuante entre nós, porém, seu status é extremamente problemático, uma verdadeira crise da memória na sociedade ocidental.
__Citando em dimensão epistemológica, lembra Edward Gibbon (Autor da obra “Declínio e Queda do Império Romano'') como exemplo dos responsáveis pela ideia de Antiguidade que hoje nos parece tão óbvia, não se tendo mais a imagem sincrônica da sociedade, como se o passado fosse apenas um antes com relação ao agora.
__Um ponto que achei de fundamental importância citar é a questão que MENESES levanta ''das tentativas de museificar o chamado ‘patrimônio cultural’, ao que se poderiam acrescentar as propostas de fazer ‘museus vivos’” que atrairiam visitantes pela “encenação e dramatização da memória” e que ao pretender anular as distâncias com o passado, acaba reduzindo-o a mero presente anacrônico, uma "disneyficação" da história. Supondo que "se possa visitar o passado" - um passado fetichizado e congelado, oferecido à visão, confundida com o conhecimento - é uma postura confortavelmente anti-histórica e antipedagógica, pois, nos aprisiona no presente e é incapaz de nos fazer aprender no confronto crítico com o diverso, o outro, a alteridade, transformando no único termômetro capaz de tudo medir". Em “Educação e museus: sedução, risco e ilusões”, o autor aborda que os museus, principalmente os brasileiros, são muito informativos e pouco educativos, que deveriam haver formas de educar seus visitantes e não apenas enchê-los de informações que se perderiam em seguida. Pode-se pensar que a culpa não é toda do museu, mas também da educação museológica, desde a educação basica, que é, infelizmente, praticamente inexistente no Brasil. No museu, buscamos algo, procuramos respostas, complementos a nossa sabedoria, formar opinião sobre algo e não para aprender tudo sobre determinado assunto. O museu deve servir como complemento a educação e não como órgão educador. Na Europa, as coisas funcionam de maneira diferente pelo simples fato de que a pessoa já vai consciente ao museu e busca um complemento, não como no Brasil que vamos só por ir, por curiosidade. Vai do visitante sair do museu e pesquisar sobre o assunto, caso ele não tenha a ciência do que acabou de ver.
__Comenta sobre a crise da memória e o problema da documentação histórica falando dos suportes documentais, sobre a descontextualização e escala da documentação, e conclui que a crise da memória cria uma situação problemática na documentação prática da história, sendo uma situação favorável a uma renovação de perspectivas e a superação de sequelas positivistas que ainda rondam nosso domínio. Conclui também que existe a necessidade de historicizar a memória. Necessidade de estreitar a solidariedade do trabalho documental e da produção do conhecimento histórico.



Bibliografia:

- LEGOFF, Jacques. História e Memória. SP – Ed. Unicamp, 2003. Cap.: Documento/monumento. Pg. 525/541.

- Revista FAPA. Ed. nº 27. Porto Alegre – RS. Pg. 13/24. Cap. O Patrimônio em construção e o conhecimento histórico. Por POSSAMAI, Zita.

- SILVA, Zélia L. (organizadora). Arquivos Patrimônio e Memória: Trajetórias e Perspectivas. SP – Ed. UNESP. Cap. A crise da memória, história e documento: reflexões para um tempo de transformações. Por Meneses, Ulpiano.

Um comentário:

Loren disse...

muy bueno el articulo! (zita)